A Farmacopeia do Invisível: uma investigação visual sobre a cura sob a ótica da neurociência e da Jurema-preta (Mimosa tenuiflora)
Esta pesquisa-criação investiga as intersecções entre a biodiversidade da Caatinga, a farmacologia da Jurema-preta (Mimosa tenuiflora) e os processos de cura nos sistemas tradicionais de saúde indígena. Partindo da trajetória da autora como farmacêutica sanitarista no Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), o projeto propõe a pintura como um dispositivo fenomenológico capaz de traduzir a complexidade bioquímica e espiritual do uso ritual desta planta-mestra. Fundamentada no Perspectivismo Ameríndio e na Neurobiologia contemporânea, a investigação articula conceitos de neuroplasticidade e modulação da Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) com a estética da física de altas energias. Conclui-se que a arte atua como ferramenta de soberania sanitária e justiça climática, tornando visíveis as agências políticas e medicinais que sustentam o corpo cosmopolítico no território.
Palavras-chave
Artes Visuais · Saúde Indígena · Jurema-preta · Farmacologia · Neuroplasticidade
Um campo de forças cosmopolítico
A relação entre a biodiversidade da Caatinga e os sistemas de cura dos povos tradicionais do Nordeste brasileiro transcende a interação de caráter puramente extrativista ou empírico, constituindo o que se define como um complexo campo de forças cosmopolítico (Stengers, 2014). No centro dessa teia, a Jurema-preta emerge não apenas como um táxon botânico de interesse farmacognóstico, mas como uma sentinela do bioma e um agente ativo de reorganização da vida.
Historicamente, o uso ritual da Jurema, bebida sagrada dos povos autóctones, possui registros que remontam a 1739 em Pernambuco, evidenciando sua presença nas missões da Paraíba e indicando dinâmicas socioculturais complexas nas fronteiras coloniais do século XVIII (Medeiros, 2006). Embora as fontes coloniais a situem nesse marco temporal, suas origens são ancestrais, anteriores à chegada dos colonizadores, e sua permanência nos dias atuais — seja nas cosmogonias indígenas, seja nos sincretismos rurais e urbanos — reafirma sua força como elemento de comunicação entre universos culturais distintos.
Sob a perspectiva da Saúde Pública e da Atenção Básica em territórios indígenas, esta investigação propõe que a cura é um evento sistêmico, no qual o corpo biológico integra-se indissociavelmente ao corpo cosmopolítico e ao território. Partindo da premissa de que a saúde das populações originárias depende da integridade do ecossistema, compreende-se que a desertificação da Caatinga implica a fragmentação direta dos processos de cura e a perda de soberania sanitária. Essa visão de saúde integral alinha-se ao conceito de Tekoá (Jecupé, 2024), que define o território como o “lugar de ser”: o solo sagrado onde se manifesta e se cultiva o Bem-Viver.
Botânica e bioquímica da Mimosa tenuiflora
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. situa-se no reino Plantae, divisão Magnoliophyta, classe Magnoliopsida, ordem Fabales, família Fabaceae, subfamília Mimosoideae. No contexto taxonômico, a espécie é frequentemente associada à Mimosa hostilis, sinônimo botânico amplamente difundido na literatura etnofarmacológica clássica (Schultes; Hofmann; Rätsch, 2001).
Trata-se de uma espécie arbustiva a arbórea, de porte médio, atingindo entre 3 e 7 metros de altura. Sua morfologia é uma resposta evolutiva ao xeromorfismo da Caatinga: o caule apresenta súber rimoso, acinzentado e profundamente fendido, revelando um cerne avermelhado de alta densidade; os ramos são armados com acúleos infraestipulares recurvados, que funcionam como mecanismos de defesa herbívora e redução de perda hídrica (Lorenzi, 2002). As folhas são bipinadas, com folíolos miúdos que se fecham em resposta a estímulos físicos ou estresse térmico. A floração ocorre entre setembro e janeiro, em espigas cilíndricas de cor branca-amarelada e aroma adocicado, fundamental para a manutenção da entomofauna local.
Espécie pioneira de alta plasticidade edáfica, prospera em solos podzólicos, latossolos e litólicos, com pH entre 5,5 e 7,0. Sua capacidade de fixação de nitrogênio confere-lhe o papel de recuperadora de solos degradados (Maia, 2004). Do ponto de vista da ecofisiologia, a planta “traduz” o estresse ambiental em complexidade química: a radiação UV intensa e a escassez hídrica atuam como eliciadores para a síntese de metabólitos secundários. Embora não conste como espécie ameaçada pela IUCN, enfrenta vulnerabilidade pelo extrativismo predatório para carvoaria e lenha, o que compromete a integridade dos juremais nativos e a soberania genética dos territórios indígenas (Lucena et al., 2015).
A complexidade química da Jurema reside em dois grandes grupos de compostos. Os taninos condensados, localizados majoritariamente no súber e nas raízes, conferem propriedades adstringentes, cicatrizantes e antimicrobianas, e respondem pela coloração “sangue de cristo” das macerações aquosas (Grünewald, 2002). Os alcaloides indólicos marcam o ápice bioquímico, na síntese de N,N-dimetiltriptamina: a biossíntese segue a rota do chiquimato, onde o L-triptofano sofre descarboxilação e sucessivas metilações enzimáticas, resultando no anel indólico fundamental para a interação com os receptores serotoninérgicos (5-HT2A) do sistema nervoso central (Santos et al., 2018).
O tradicional “vinho da Jurema” é, tecnicamente, uma maceração aquosa a frio das cascas da raiz. Diferente da ayahuasca, que utiliza o cozimento, a extração da Jurema privilegia a solubilidade em temperatura ambiente para preservar compostos termolábeis. O grande enigma farmacológico reside na atividade oral da DMT: investigações contemporâneas sugerem um efeito comitiva, em que saponinas, taninos e alcaloides traço atuariam na modulação da absorção ou na proteção da molécula contra a degradação enzimática (Ott, 1998).
Para a saúde pública indígena e para a arte aqui proposta, a Jurema-preta deixa de ser um objeto botânico para tornar-se um sujeito biotecnológico. Sua resistência à desertificação é uma metáfora da resistência dos povos do Nordeste.
A dimensão farmacêutica e a neuroplasticidade ritual
Sob a ótica da farmacologia, a Mimosa tenuiflora constitui um reservatório de elevada complexidade bioquímica, notadamente pela presença de alcaloides indólicos que estabelecem diálogo molecular direto com os receptores serotoninérgicos humanos. Essa geometria tem sua gênese na via do ácido chiquímico, rota metabólica que atua como a fábrica primária da planta. Todavia, a eficácia terapêutica não se circunscreve à farmacodinâmica isolada: o fármaco, neste contexto, é indissociável do rito e do território.
A centralidade biológica da Jurema-preta é corroborada por investigações etnofarmacológicas realizadas no semiárido brasileiro (Silva; Lima et al., 2013). Para esta pesquisa-criação, a robustez botânica identificada pela ciência regional opera como metáfora para a própria resistência dos povos originários, onde a estrutura molecular da planta, mapeada em laboratório, é transposta para a tela como uma geometria de cura e sobrevivência.
A interface com as neurociências surge como campo de tradução fundamental. Estudos contemporâneos (Araújo et al., 2012; Carhart-Harris, 2014) sugerem que o uso ritual dessas substâncias promove modulação na Rede de Modo Padrão (Default Mode Network), verificada por ressonância magnética funcional, viabilizando flexibilização cognitiva e neuroplasticidade. No universo indígena, tal fenômeno traduz-se na capacidade do sujeito de renegociar traumas e identidades dentro de um corpo cosmopolítico.
A robustez farmacológica da espécie expande-se para além do campo da consciência: investigações recentes sugerem que seus alcaloides indólicos não apenas modulam receptores 5-HT2A, mas induzem a liberação de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), promovendo sinaptogênese que repara atrofias dendríticas causadas pelo estresse (Palhano-Fontes et al., 2019). Paralelamente, a dimensão somática da planta revela-se em sua casca, reservatório de taninos e saponinas com potente ação anti-inflamatória e pró-cicatrizante (De Souza et al., 2008). A pintura, consequentemente, não constitui mera representação: é a sistematização visual dessa transição neural, espiritual e política.
Perspectivismo e a semiótica da cura
A transmutação do olhar farmacêutico em gesto pictórico dialoga diretamente com o Perspectivismo Ameríndio (Viveiros de Castro, 2002). Ao reconhecer que plantas, animais e espíritos possuem agência política e subjetividade, a série atua como exercício de antropologia visual: a artista-pesquisadora abdica da observação externa, puramente objetiva, para habitar a perspectiva da planta e do território.
Nesta cosmogonia materializada em tela, a natureza não é cenário, mas presença pulsante: o mar possui vida própria, o céu manifesta uma vitalidade que “pisca” e todos os elementos do bioma vibram em frequências singulares. A pintura rompe com o dualismo ocidental natureza/cultura ao propor uma estética de equivalência, onde o acelerador de partículas e o maracá ocupam o mesmo plano existencial de dignidade ontológica.
Essa construção utiliza uma cartografia de signos que operam como chaves de acesso a um sistema cultural de cosmologia. Segundo Eliade (2013), o mito e seus símbolos reatualizam o “tempo primordial, o tempo fabuloso do princípio”. Elementos rituais como o cachimbo e o maracá são signos que reconectam o corpo biológico a essa matriz originária e vivente. Ao pintar a vibração do céu e do mar, a artista evoca a eficácia simbólica do ritual, transformando a tela em um organismo vivo que pulsa em harmonia com o Tekoá.
A arte como método de cura e soberania sanitária
A prática na saúde pública demonstra que a cura constitui, frequentemente, o processo de tornar visível o que a patologia ocidental invisibiliza. Quando a linguagem técnica da farmacopeia manifesta insuficiência para descrever a fenomenologia da consciência, surge a arte. Ao utilizar a estética da física de altas energias, busca-se mapear as “colisões” entre a dimensão molecular e a espiritual.
A relevância desta investigação reside na necessidade de tensionar as fronteiras entre a ciência biomédica e as epistemologias indígenas. A escolha da Jurema-preta justifica-se por sua centralidade na Caatinga, bioma que, conforme Krenak (2019), reflete as cicatrizes da negligência ambiental e as potências de regeneração do território.
O projeto assume, por fim, um caráter de soberania sanitária e intelectual: ao transmutar o olhar farmacêutico em gesto pictórico, a pesquisa propõe que a elaboração de traumas históricos passa pela reconexão com a farmacopeia viva do semiárido, combatendo a invisibilidade biopolítica desses saberes e protegendo o patrimônio imaterial e genético do Nordeste brasileiro.
- Representar a Jurema-preta como sentinela da Caatinga e investigar, pelo gesto pictórico, a interdependência entre a preservação do bioma e a manutenção das soberanias medicinais e da justiça climática para os povos indígenas do Nordeste.
- Materializar a farmacodinâmica em planos visuais: traduzir a interação entre alcaloides indólicos e receptores neurais usando a transparência da acrílica para representar a reorganização espiritual e biológica durante o ritual.
- Articular o corpo biológico e o corpo cosmopolítico, mapeando como a saúde individual se liga à integridade do território e às redes de resistência da Caatinga baiana.
- Sistematizar a simbiose planta/paciente, unindo o rigor técnico da farmacologia à subjetividade artística.
- Integrar a estética da física de altas energias: geometrias vibracionais e rastros de luz inspirados em aceleradores de partículas, para simbolizar a colisão entre a matéria biológica e a experiência mística.
A investigação fundamenta-se na pintura como método de conhecimento, operando na zona de fronteira entre a etnofarmacologia, a neurobiologia e as artes visuais. Baseia-se na premissa de Kandinsky (1911) sobre a “necessidade interior”, segundo a qual a arte atua como instrumento de comunicação de estados espirituais que a linguagem verbal é incapaz de exprimir. A execução do corpus artístico ocorre entre janeiro e junho de 2026.
Fase analítica: levantamento bibliográfico e iconográfico
Jan – Fev / 2026Revisão epistemológica da farmacodinâmica da Mimosa tenuiflora e dos mecanismos de modulação da Rede de Modo Padrão; levantamento iconográfico de diagramas de colisões de partículas e registros de luz síncrotron, estabelecendo paralelos formais entre a física e as visões induzidas pela Jurema; estudo da resiliência da Caatinga sob a ótica da justiça climática e da filosofia de resistência indígena.
Fase dialógica: interlocução e escuta atenta
Fev – Mar / 2026Cartografia sensível, com coleta de subsídios imateriais pela história oral e científica: diálogos com lideranças indígenas da Bahia, visando apreender a Jurema-preta como entidade de resistência política e ontológica; e consultoria interdisciplinar em neuroimagem para a leitura científica das representações visuais da neuroplasticidade e dos estados alterados de consciência.
Fase prática: a série pictórica e a fenomenologia da cor
2026A produção das telas em grande formato usa a tinta acrílica como meio, mimetizando a complexidade das camadas da consciência. Entre os núcleos de trabalho: a cobra-canoa, serpente de várias faces que carrega dentro de si não só gente, mas a própria ciência da Jurema; a dissecação da Jurema-preta, abordagem analítica do olhar farmacêutico sobre a anatomia vegetal; o maracá como colisor ancestral, em que as sementes atuam como partículas subatômicas que reordenam a realidade; e o cachimbo como aceleração do espírito, estudo da fumaça como vetor de luz síncrotron.
Conversa sobre os saberes que cruzam a terra e a cura. “Para o meu trabalho artístico, cada palavra dela é um traço novo que se desenha. A arte não nasce sozinha: ela floresce do encontro e do respeito à ancestralidade.”
De Paulo Afonso, Bahia. A raiz de Jurema-preta que abre os estudos botânicos da série é um presente seu.
“Um encontro breve, mas de uma profundidade imensa. Tive a alegria de conversar com o Dr. Dráulio Araújo, uma das maiores referências em neurociência no nosso país, e receber caminhos para mergulhar na ciência da Jurema-preta.”
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